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6º Raid Al Magrib, Something to remember
for the years to come
por Ricardo
Escrevi
este diário sobre o raid Al-Magrib para aqueles que o percorreram,
recordem e não esqueçam, e para aqueles que ainda não percorreram, o
façam, onde quer que estejam.
Muita
coisa se passou durante estes 7 dias que não podem, nem se conseguem
descrever. São momentos únicos e inesquecíveis que deixarão para sempre
uma marca indelével na minha memória e na memória de todas as pessoas com
quem convivi e me cruzei.
Alguns
só sabem que existe um mundo lá fora porque têm televisão em casa, e
aqueles que não ousam experimentar novas experiências, nunca perceberão
estas palavras, porque não as viveram.
Reguengos de Monsaraz
- Marrakech
Hoje
parti de Reguengos de ânimo leve. Julgava eu que esta aventura iria ser
fácil. Em Rosal de La Frontera veio-me à memória tempos passados há mais
de 15 anos.
Na
minha mente tinha a imagem de uma rua com lojas de ambos os lados, onde
se compravam rebuçados, eram tempos em que compensava ir até Espanha,
aquele território era estranho para um jovem adolescente.
É bom
reviver o passado, especialmente quando são boas recordações.
Ao
embarcar no Fast-Ferry, apercebi-me o porquê de ser tão rápido e de não
ir com muita gente a bordo. O preço do bilhete é precisamente o mesmo que
para outra embarcação normal, a diferença está na velocidade. Enquanto
que neste se demora 35 min a chegar a Tanger, no outro demora-se 2h30
para Algeciras. A rapidez paga-se com as fortes rebentações no casco do
navio provocando grandes oscilações. Até fazia tilt...
Chegado
a Tanger e ainda no ferry, é altura de seguir a técnica da imitação. A um
canto estava uma mesa reservada para a polícia marroquina onde as pessoas
se dirigiam para ir buscar uns papéis. Pois é, eram para preencher e
entregar para a polícia carimbar o passaporte, longos minutos passaram
desde o primeiro gesto de apanhar o papel. O pior estava para chegar e eu
ainda não sabia.
Já na
alfândega, fiquei retido tempos a fio. O portageiro marroquino pedia-me
uma propina para que a assinatura dos papéis do carro fosse mais rápida.
Fiz-me desentendido, e os minutos foram passando e eu não passava daquele
impasse. A aventura de uma vida tinha acabado ainda antes de ter
começado.
Chamei-o
e dei-lhe 20 dirhams (2€) - ele queria 10€ para desbloquear aquela
situação. Nisto veio outro falso guia, dizendo que tinha de ir à polícia
mostrar o passaporte porque era a primeira vez que ali estava. Este
portageiro era mais simpático, chamava-se Ahmed, e acompanhou-me naquele
caminho desesperante. Diversas pessoas ofereciam os seuss serviços, mas o
Ahmed só dizia “tranquilo”. E assim foi, nº do passaporte inserido no
computador e mais 50 dh fora do bolso. Voltei aguardar “tranquilo”. Não
se pode apressar os marroquinos.
Cansado
de esperar, chamei pelo seu nome e perguntei-lhe o que se estava a
passar? Euros disse ele. 10€ foram a alavanca que me tiraram dali para
fora.
Motor
a trabalhar e sigo as indicações em direcção a Rabat. A única estrada
disponível estava fechada, quando dei conta estava a caminho de Sebta
(Ceuta), direcção oposta aquela que queria tomar. Imaginem a rotunda do
Marquês com metade do tamanho, e misturem um bocado de pessoas,
bicicletas, animais e vejam onde é que eu estou metido.
Parei
e perguntei a um polícia como seguia para Rabat? Disse qualquer coisa em
árabe parecido com “ficas aqui hoje, dormes em Tânger e bebes um café”.
Não sabia o que pensar. Ali não ficava eu.
Insatisfeito
com a primeira resposta, pergunto a outro polícia que disse qualquer
coisa assim “Volta a Tânger, bebe lá um café que isto já passa”. Voltei
atrás e estacionei mesmo em frente à grade policial que me impedia a
passagem. Tive tempo de conversar com um arrumador idoso e perguntei-lhe
se aquilo era porque estavam a rezar? Riu-se imenso - quando fiz o gesto
de rezar- acenando com a cabeça em sinal afirmativo.
Segui
viagem e reparei na grande costa com lindas praias e policias por todo o
lado.
Fiz-me
à estrada logo após o sol nascer, eram 06h30 da manhã. Segui a
auto-estrada para Larache, onde deveria fazer um desvio até Ksar el
Quibir. Foram mais 30 kms, ida e volta, mas valeu a pena porque a carga
histórica em torno deste nome é muito forte para nós, portugueses.
Mais
uma vez fiquei surpreendido com a forma de conduzir marroquina. Já tinha
estado na Tunísia e visto algo parecido, mas aqui é impressionante a
falta de respeito pelas regras de trânsito. Os traços contínuos e sinais
existem e estão nos sítios certos, a polícia também existe -e são muitos-
mas os infractores escapam-se sempre. Bem, nem todos podem escapar, por
duas vezes não tive essa sorte.
A
auto estrada parece um campo minado. Nunca se sabe onde está uma mina.
São miúdos no meio da via, peões e bicicletas nas bermas, camions de
marcha atrás, transporte de materiais de um lado para o outro, a pedirem
boleia, etc. Ah! Quase me esquecia, a relva debaixo dos rails de
protecção deve ser mais tenrinha e abundante. Havia ovelhas a pastar por
aqui e por ali...
Cada vez
que entrava numa cidade como Rabat e Casablanca, o meu ritmo cardíaco
disparava para valores fora do normal. Por diversas vezes iam-me
arrancando a pintura do Peugeot que ainda só tem um mês. Cada vez que me
lembro disto, nem sei como me meti em tal loucura.
Quem
sobrevive e conduz em Marrocos, está apto para qualquer região do
planeta.
Fiquei
feliz ao ver o nome Marrakech escrito numa placa da estrada, era sinal
que a mesma ia até lá, e eu sempre podia ir um pouco mais à vontade,
porque se a auto estrada parece um campo minado, a N1 parece o Iraque.
Somos todos potenciais alvos.
Em
Roma sê romano, em Marrocos sê marroquino, depois de mais de 400 kms, o
traço contínuo deixou de existir para mim durante pelos menos 2 ou 3
vezes, mas mesmo assim ainda ganhava o troféu “volante de cristal, tão
dedicada, cuidada e precisa era a minha condução.
A
auto estrada acabava em Sebbat, 148 kms era quanto marcava para chegar ao
meu destino. Disse para mim mesmo “Não pode ser, mais 3 h de tortura!!!”
Sinais
de luzes. Isto deve ser um sinal de polícia, pensava. Bem, o limite é de
100km/h, eu vou a 90 por isso não deve haver problema. Ainda esperei que
outro carro me ultrapasse, não fosse a polícia mandar-me parar. Não havia
hipótese, os outros carros estavam cada vez mais longe, mantive a
velocidade cruzeiro até a polícia me mandar parar.
Diziam
“qualquer coisa Vitesse”. Grande bronca, fui apanhado no radar.
Eu
afirmava aos polícias que ia abaixo da velocidade permitida que era de
100km/h, o polícia disse-me que o limite era de 60 km/h e por isso tinha
de pagar 400 Dh. Grande bronca. Só tenho 170 Dh. E agora?
Se
fosse em Portugal, com um pouco de parlapier e a coisa resolvia-se, aqui,
o meu francês é mau e o árabe ainda pior. Peguei em 40€ e perguntei se
podia ser assim -em Portugal era suborno de certeza- ainda expliquei a
ambos que correspondia a 400 Dh. Olharam um para o outro e pensei que
fossem aceitar o dinheiro ou então encará-lo como um suborno.
Estava
feito, quando um deles disse “la base”, pensava “ terei de ir para a
esquadra?”. Grande bronca. Eu só queria chegar a Marrakech para andar de
bicicleta. A base não era uma esquadra, era uma base militar que tinha
passado minutos antes. Com a aflição nem me lembrava.
Perguntaram-me
se era a primeira vez em Marrocos e se era casado? Respondi que sim, e
mandaram-me seguir. Como sinal de agradecimento, abri a carteira e
mostrei a suposta foto do meu filho -era o meu sobrinho- , mas o que eles
adoram foi a foto da minha mulher, Ariete. Eu dizia, “Mui Guapa”, mais
uma vez consegui uns calorosos apertos de mão, uns sorrisos rasgados e um
“bom journée” como companhia. Tudo isto porque fui sempre muito educado e
disse algumas palavras em árabe.
O Raid
Já em
Marrakech, as indicações para o hotel Siaha **** correram bem. Desta vez
não me perdi.
Rapidamente
e sem perder tempo faço o check in no hotel, porque o tempo para ir à
praça jamaa El Fna era pouco. A praça era como um cartão de visita
ilustrado, demasiado real para passar despercebido. Tudo o que li e ouvi,
sobre o Marrocos das cores, o Marrocos dos perfumes, o Marrocos das
matérias, estava ali, ao meu alcance num verdadeiro jogo de sedução, ao
qual seria uma loucura resistir-lhe.
A
organização tinha preparado uma reunião para as 18h00 para todos os
participantes se conhecerem e onde se iria explicar em espanhol os 7 dias
da aventura marroquina. Dali passámos à montagem das bicicletas, Marta, a
rapariga mais franzina do grupo, teve uma pequena avaria. Perdeu o
parafuso que prendia o volante. Fita cola tipo americana foi a solução
encontrada. O tempo será o juiz se esta opção foi ou não a melhor, pelo
menos foi a possível.
-1º dia
05h00
da manhã e o galo não cantou. Fiquei na dúvida se foi por não haver galos
em Marrocos, ou se era muito cedo?
Pequeno-almoço
tomado e lá fomos nós para a primeira tirada do dia. Eram perto de 200 km
para serem percorridos de jipe. Muitas horas depois chegávamos finalmente
ao nosso destino, ainda um bocado ensonados e maçados.
Esperavam-nos
longa subidas em alcatrão não muito acentuadas. Enchi o meu camelbag em
demasia, mas rapidamente cheguei à conclusão que não era necessário tanta
água porque a organização estava sempre por perto com o apoio logístico
necessário.
As
descidas são um pouco acentuadas e o alcatrão faz-nos rolar a imensa
velocidade.
Ao
longe, já se podia descortinar o local onde o nossos corpos iriam
repousar. Era um aldeia berbere recheada de miúdos ansiosos pela nossa
chegada. Alguns bombons volvidos, e eis que chega a hora da escolha dos
grupos por parte dos miúdos berberes.
Oferecem-nos
as suas casas, simples sem água nem luz, construídas com engenho e
dedicação com uma argamassa de terra e palha compactada. Ali, nada é
supérfluo, tudo tem uma razão de existir. É incrível como a hospitalidade
e o conforto proporcionado pelos inúmeros tapetes, nos conseguem
transmitir confiança e a sensação da frase “home sweet home”. Este povo
não tinha nada e vivia feliz. Uma lição de vida para muitos povos
ocidentais.
A
espécie de salamandra existente aquece rapidamente aquele local, sem
dúvida o melhor lugar da casa. Eu, o Fran, o Miguel, a Pilar e Chema
doravante será o “El Chacal”, trauteávamos diversas músicas entre muitas
rodadas de chá verde e de pão que era molhado numa mistura de mel e
azeite, presumo eu. Esta, e os sinais, eram a única forma de comunicação
possível com o Yubi, a sua mãe e o senhor idoso.
O
nosso apetite tinha sido camuflado, não sentíamos fome mas era óbvio que
aquela refeição não tinha os nutrientes necessários para repor as
energias despendidas naquele dia, nem para nos preparar para os
seguintes. Sabendo disso, a organização preparou-nos uma bela refeição de
massa para aqueles que desejassem comer.
-2 dia
Já de
manhã voltaram a servir-nos pão e chá. Não saíamos dali sem beber pelo
menos 3 copos de chá cada um.
É
sufocante e impressionante como os miúdos nos cercam. Aparecem vindos de
todo o lado, abordando-nos pedindo sempre algo. Alguns correm descalços
atrás de nós durante largos kms, para mim essa atitude era recompensada
com um bombom ou uma moeda de 1dh.
Os
miúdos apesar de não mexerem em nada, são sempre muitos e chegam a
magoar-se por causa de um bombom, mas, nem tudo tem sido fácil, ao
atravessarmos algumas aldeias, fomos corridos à pedrada porque não
tínhamos dado nada. Os 3 kg de rebuçados e doces tinham de ser racionados
pelos 7 dias, se eu quisesse não duravam uma tarde.
Aqui
estamos nós a beber um chá, quem sabe, com água do lago Tislit que está
aqui bem perto de nós. Só para alguns, havia ainda outro lago, chamado
Isli, maior que este, mas para lá chegar eram precisos mais alguns kms
(15) .Como alguém disse e muito bem “Vamos lá”. É para isso que aqui
estamos.”
Izlane
é o hotel onde está o chá e os bolinhos. Tralha arrumada e é altura de
tomar um banho turco antes de anoitecer.
As
instalações eram básicas, no local havia 2 cubas enormes sempre com água
a correr, uma a ferver e a outra fria, o balde, distribuído à entrada,
era o ingrediente que faltava para o menu principal. Cada um fazia a sua
própria mistura, e depois era só deitar cabeça abaixo. Uma experiência a
repetir, sem dúvida. Uma forma de relaxar em território africano. Quem
quisesse tinha direito a massagem.
Parece
que estou num filme, tudo isto parece uma paisagem lunar. Estarei a
sonhar ou a delirar!!!
-3º dia
Não é
um pequeno-almoço continental, mas as panquecas, doce e corn-flakes são
mais do que suficientes para alimentar corpo e espírito.
Saímos
tarde e lá fomos em direcção ao ponto mais alto de todo o raid. São 2600
m de altitude, rasgados por enormes vales férteis onde os árabes
aproveitam para cultivar o seu sustento.
Gritos
e mais gritos de crianças que vêm ao nosso encontro de onde quer que
estejam, estas são as palavras que ficarão para sempre na minha memória:
“uée, uée, uée, uée uée, uée; monsieur, monsieur monsieur; bombom,
bombom; stilo, stilo, stilo”, tudo isto, repetido dezenas de vezes por
dezenas de crianças e que somado ao longo de vários quilómetros, dá
muitos milhares de palavras.
Ao
atravessarmos as aldeias, as crianças mais medrosas ficam na berma da
estrada de braço estendido esperando o toque das mãos do betetista.
Existe
sempre um espaço restrito para além do qual elas nunca passam. É como se
há nossa volta existisse um escudo que nos protegesse, porém, hoje
tivemos de ser escoltados por 2 vezes.
Está na
hora de mais um troço cronometrado. Ontem, o troço não me tinha corrido
bem, eram só 5 kms, sempre a subir por alcatrão. Fiquei em 4º lugar. Quem
me surpreendeu foi a rapariga da fita-cola; na sua bicicleta de fim de
semana, pedalada a pedalada, ia ganhando terreno a todos os demais.
Acabou por ficar em 2º lugar. Na altura olhando para ela pensei ”detrás
daquele seu aspecto frágil, esconde-se uma máquina geneticamente
perfeita”. Era ela. Era a Marta, uma “fiera”, como ela carinhosamente me
chamava.
Hoje o
troço tinha 20 kms e eram apenas caminhos, bem ao estilo do btt. O vento
estava horrível e não permitia grandes andamentos. Consegui chegar em 2º
lugar com alguma distância dos restantes.
Almoço
variado composto de massa, cenoura, tomate, beterraba servido a 2600m de
altitude, antes da descida de 20 kms.
Paisagens
surreais e caminhos fantásticos, as melhores e mais rápidos que alguma
vez fiz.
-4º dia
A
etapa de hoje servia para relaxar, o dia seguinte adivinhava-se bastante
duro.
A
manhã começou de forma animada, estava previsto uma gincana -semelhante a
um rally papper- para isso fomos divididos em grupos de 4. O objectivo
era descobrir as 4 pistas que nos eram dadas, só validando as mesmas é
que era possível seguir o caminho correcto.
O meu
grupo, de nome “canário”, era constituído pelo Edu, Itziar e Juan Pablo,
recebemos como primeira missão, um papel com algo escrito em árabe. Após
longas e diversas tentativas das mais variadas maneiras, descobrimos que
as palavras significavam o nome de um senhor que estava algures na aldeia
berbere, pronunciava-se Forchiberchou. Como se escreve? Não sei.
Quem
tem boca vai a Roma, e nós, fomos a casa do senhor. Um convite nunca se
recusa, e então sentámo-nos para uma rodada de wisky berbere (chá). A
primeira daquele dia. Sem nos preocuparmos com as horas, fomos
conversando e por fim lá recebemos a 2ª pista para seguirmos sul em
direcção às gargantas do Todra.
Ao
passarmos junto ao albergue Baddou, ficámos a saber que éramos os
últimos. Parecíamos o comboio regional, parávamos em todas as tascas e
apeadeiros.
As
gargantas do Todra são fabulosas, um imenso desfiladeiro com paredes de
escalada e muitas barracas com um pouco de tudo à venda. O resto dos
participantes nem a sombra se via.
Já no
hotel em Tinerhir, esperava-nos um presunto pronto para ser devorado. Os
árabes e muçulmanos não comem carne de porco, nem bebem cerveja, no
entanto, aqui foi possível arranjar ambas as coisas.
Mais
uma vez, nada a apontar, nem do hotel, nem do jantar, nem mesmo do
serviço.
-5º dia
Parecia
a maratona de Portalegre. Era ainda muito cedo e já se notava o bafo
vindo do deserto. Aquela hora deu para perceber que o dia ia ser quente.
Foi a
etapa mais longa, e também a mais espectacular. Não digo que tenha sido a
mais dura, porque tivemos umas descidas super perigosas cheias de pedras
durante mais de 2 horas para percorrermos pouco mais de 20 kms.
É
verdade que parávamos para tirar fotografias, mas era quase impossível
faze-las todas de seguida devido às dores que provocavam nos joelhos,
costas e trícipetes. É incrível como é que no meio do nada, se consegue
ver 1 ou 2 berberes isolados, vendendo algo.
Cheguei
arrasado a Baha. Tinha conseguido manter o 2º lugar durante o 3º troço
cronometrado do Raid. Depois fiquei para trás para tirar umas fotos
quando reparei na Itziar que vinha sozinha. Disse-me “Que alívio verte”,
como um verdadeiro cavalheiro, acompanhei a senhora até lugar seguro.
Faltavam mais de 30 kms para o fim, escusado será dizer que chegámos já
de noite.
Dentro
das muralhas da Kasbah esperavam por nós... umas tendas dispostas em
forma de acampamento equipadas com tudo, à excepção do ar-condicionado.
-6º dia
06h00,
um pequeno-almoço recheado, e baterias carregadas para outro dia
alucinante.
A fase
seguinte passava pela inspecção e limpeza geral da Btt. Uma surpresa,
tinha 2 enormes bolsas de ar no pneu tubeless traseiro (deve ter sido das
pancadas). Gritei bem alto “Sabotagem”. Os espanhóis estão a tentar fazer
com que fique desclassificado. Neste momento vou em 2º lugar, a muitos
minutos do primeiro e com alguma margem de manobra para os restantes
participantes. O que havia a fazer? Mudar de pneu foi a primeira coisa
que me ocorreu, o problema era o sistema tubeless, por aquelas bandas não
havia pneu tubeless de certeza. Tirei o pneu para colocar uma câmara, por
dentro parecia estar com varicela, havia bolhas por todo o lado.
Said,
o condutor berbere, sacou de um espinho que serviu de alfinete para
retirar o ar da bolsa que se tinha formado, tal e qual como fazemos para
diminuir o tamanho das bolhas que se formam no nosso corpo quando há
fricção. Esta operação resultou, o pneu parecia um passador, o líquido
verde era como suor a sair dos poros. O pneu tornou-se quimicamente
instável!!! Estava sujeito ao furo a qualquer momento.
Os
homens berberes que nos acompanham, são hábeis condutores e engenhosos
mecânicos. Por diversas vezes vi-os solucionarem problemas com o pouco
que têm à mão. A necessidade aguça o engenho.
Faltava
1 troço competitivo, Xavi, o 1º classificado tinha 10 minutos de avanço
em relação a mim, e por sua vez eu tinha sobre Andreu, uma vantagem de 5
min -que não me chegavam se furasse. Estava portanto o 2º lugar em
aberto. Antes da partida, decido pela primeira vez deixar tudo o que
carregava no jipe. A partir daquele instante, as minhas pernas
transformaram-se em asas prontas para voar sobre mais um prémio de
montanha. Foram 3 duríssimos “puertos”, como lhes chamavam os espanhóis.
Lembro-me
agora que entre muitas avarias, tais como SPD arrancarem-se dos sapatos,
desviadores, raios, parafusos de suspensão, uns travões de disco Magura
Julie que tiveram de ser sangrados, eu, além deste percalço do pneu
também tive os meus problemas. O travão da frente continua esponjoso, mas
desenrasca, as rodas CrossMax “foram testadas em combate” e nas piores
condições de utilização, desconfio que a roda de trás está empenada. Se
assim for, não passam no teste do material.
São
15 km competitivos por trilhos pedregosos e arenosos. Após escassos
metros do início, assumo a liderança que consegui manter sempre até ao
fim. Ganhei alguns minutos a Xavi, mas não foram os suficientes para
ganhar o prémio final que era um capacete. Há medida que ia ganhando
terreno, pensava que Xavi estava a fazer de propósito, ao falar com ele,
reparei que estava mal. Tinha diarreia e estava desidratado. Se houvesse
mais dias de competição não lhe dava hipótese.
Havia
de ser bonito se fosse um português a ganhar o Raid.
Marta
e Itziar não rolaram nesse dia, isto estava a ser demasiado massacrante
para quem começou andar de bicicleta há pouco tempo. Temos feito nos
últimos 2 dias estiradas de mais de 100 km, e quase sempre por caminhos
de terra.
Este
raid era para ter uma duração de 7 dias em que o último seria de 23 km
para visitarmos as dunas de Tinfou, porta de entrada para o sahara. Houve
alguém que teve a brilhante ideia de juntarmos a etapa de hoje com a do
dia seguinte. Até aqui tudo bem, assim ganhávamos um dia para a viajem
até Marrakech (deveria levar no mínimo 8 h de carro), o pior, foi quando
rolávamos há aproximadamente 5 h pelo deserto fora que o psicológico
começou a funcionar, ou seja, durante o almoço, Juan, questionou quem
queria ir até Tinfou. Ao que parece fui o único louco a dizer que queria
ir.
Passado
um rato- um bocado- depois de estarmos novamente ao caminho e após breve
paragem para bebermos algo, Juan fez questão de lembrar a todos que,
deixarmos os 23 Kms restantes para o dia seguinte ia ser pior devido ao
calor e à viagem que teríamos de fazer, além do mais, ficaríamos a
descansar tranquilamente no hotel, tomávamos o pequeno-almoço mais tarde,
e depois era seguir viagem com banho tomado e roupa limpa. Se assim não
fosse iríamos todos suados, cheios de areia e com a roupa da bicicleta
que não é tão confortável com esta que trago vestida.
A
decisão foi unânime, fazemos tudo hoje, até às dunas são 20 kms de
alcatrão e mesmo assim o pessoal rolava a uma velocidade assustadoramente
baixa (14km/h).
O
hotel Palmeral em Zagora tem boas instalações, e permite uma excelente
vista sobre o nascer ou pôr do sol.
Ao
jantar, além do típico cuscus com frango ou cordeiro, a massa sempre fez
parte da nossa ementa. A qualidade e quantidade são sempre mais que
suficientes. Quem me conhece sabe que sou um bom garfo.
Moscas
no leite, no doce e na manteiga fazem parte do menu do betetista berbere.
Há
coisas que por aqui não se podem esquecer, nem sequer ficar indiferentes,
como por exemplo ver miúdos com menos de 15 anos arranjar uma estrada de
terra batida; tinham uma pequena pá/pica que utilizavam para sacar terra
e preencher os buracos do caminho, eram simultaneamente “
retroescavadora” e “cilndro”, aquilo era a forma mais baixa de vida em
Marrocos, recebiam das pessoas que percorriam aquela estrada. Ali
passavam a sua juventude, de dia trabalhavam, e à noite dormiam nas
tendas que estavam próximas.
Na
arte do regateio, os árabes já me chamavam berbere, também diziam, que
sou louco; já são tantos a dizer o mesmo que começo acreditar que preciso
mesmo de tomar comprimidos para a loucura.
-7º dia
Partimos
de Zagora sem pressa, tal e qual os marroquinos. O fim da aventura para
alguns estava a 8 h de viagem, aqui, as distâncias são medidas em horas.
Chegámos
ao Hotel Siaha, 7 dias depois da maioria de nós se ter conhecido e encontrado
pela primeira vez. Aí tive uma agradável surpresa. O carro estava intacto
e lavado, o marroquino que tinha pedido dinheiro para guardar o carro,
manteve a sua promessa; na altura duvidei que fosse realizar quaisquer um
dos trabalhos.
Fomos
a um restaurante junto à praça jamaa el Fna para apreciarmos um buffet
marroquino (12€), mas antes do jantar convívio, ainda deu tempo para
comprar alguma pastelaria tradicional para se comer em família ao redor
de um chá “made in Marrocos”, feito em Portugal.
Marrakech -
Reguengos de Monsaraz, 25 Abril 04
Comemora-se
hoje em Portugal o dia da liberdade, eu estou a 600 km de regressar a
esse país à beira mar plantado.
O
toque de alvorada foi às 07h00 apenas para mim; tomei um pequeno-almoço
não muito reforçado como é meu apanágio, porque ainda estava satisfeito
do buffet do dia anterior.
Abasteci
o carro com gasóleo 350 (0.70€), mais caro que o normal, mas compensa
porque fiz mais de 500 kms e ainda não atingi o meio depósito. Feitas as
contas, deveria demorar 8 h para chegar a Tânger e apanhar o ferry das
17h00; à medida que o tempo ia passando fui tendo a sensação que era
possível fazer o check-in às 14h30. A minha vontade de passar o sufoco
daquele tipo de condução era tal, que resolvi arriscar e comecei andar a
140Km/h na auto estrada, o meu coração estava com mais rotação que o
motor, faltavam mais de 100 kms e
então pensei “ vou mais devagar, almoço tranquilamente no caminho, e
aprecio o momento”. Em boa hora o fiz.
Parei
numa zona de descanso com restaurante em Assilah para almoçar. O peixe
frito desta localidade tem muita fama - o roteiro marroquino falava desta
maravilhosa iguaria. Eu comprovei-o.
Tânger,
rampa de lançamento para um mundo novo, a poucos metros do meu campo de
visão estava o “foguetão” para Espanha. Eu ia atento a tudo o que mexia,
e como os sinais de trânsito não se movem em Marrocos, não parei num
Stop. “Por sorte” estava por ali um polícia que teve a amabilidade de
mandar-me parar e chamar-me atenção desse pormenor depois de pedir todos
os documentos do carro, dizer com voz rude e áspera que eu tinha feito
algo de errado (não entendia nada do que dizia), naquela altura, nem
francês, nem árabe me safavam daquela embrulhada. Pensei “radar não era,
porque vinha devagar, só podia ser traço contínuo ou sinal de trânsito”,
apontei para o sinal, e com um pouco de estupidez natural perguntei se
“era aquilo”. O polícia rendeu-se ás armas que lhe apresentei e disse “Yo
hablo espanhol” estava safo. Expliquei-lhe então que não vi o sinal,
porque estava a conduzir há 8 h, tinha andado 7 dias de btt pelo médio e
alto Atlas e estava cansado; quando deu conta estava a ver as fotos na
máquina digital e a ouvir falar de Morocco 2010 e de Luís Figo. O segredo
está em falar aquilo que as pessoas querem ouvir.
Se
para entrar em Tânger era difícil, sair nem se fala; alguns metros antes
do porto, fui interpelado por um portageiro chamado Mustafá, que fez
questão de acompanhar-me até agência do fast-ferry para comprar o
bilhete. Ele mexia-se como “peixe na água”. Fomos novamente a outra
agência trocar o bilhete por um voucher, as minhas dúvidas e receios
nunca permitiam que lhe passasse os bilhetes e o passaporte para a mão,
apesar da sua insistência. Deixou-me só a uns bons metros da alfândega
depois de dizer que o seu trabalho tinha acabado por ali e que tinha
trabalhado para 100 Dh. Habituado ao regateio, com apenas 200 Dh no
bolso, e sabendo que ainda me faltava uma série de etapas antes da saída,
dei-lhe 1/3 do dinheiro que tinha, e disse-lhe que o resto era para os
“outros abutres” que já andavam a rondar perto de mim. Segui a técnica da
imitação e coloquei-me numa fila junto da alfândega para carimbar o
passaporte; peguei no carro, aguardei e neguei diversas vezes mais
qualquer tipo de ajuda. Ali fiquei, pensando que tudo estava bem, quando
observei que ainda faltava assinar a 2ª folha das 3 que tinha recebido à
entrada em Tânger. Outro portageiro mais atento disse -“português
passaporte assinado, segue”- abriu um corredor no meio dos outros carros
para que pudesse passar, depois, só à minha 3ª nega é que lhe dei as
folhas para levar ao polícia para assinar. Como pagamento, dei-lhe o
restante dinheiro -isto aqui é mesmo assim, não à volta a dar, temos de
lhes dar uma propina para os papéis circularem-, todos os portageiros têm
um cartão que os autoriza para exercer aquele tipo de actividade. É como
se os “carochos” portugueses (arrumadores de carros), que também recebem
propinas de todos nós, tivessem autorização do estado português para
trabalharem dessa forma.
Enquanto
aguardava que o ferry atracasse, olhei para o voucher e reparei que tinha
sido enganado. Venderam-me um bilhete para 1 voiture e 1 enfant (paguei o
preço de um adulto), não era engano, é prática corrente entre os guias e
o indivíduo da agência.
Já ao
final do dia cruzei o estreito de Gilbraltar, e Graças a Deus cheguei a
casa vivo com uma série de muitas e boas recordações.
Reguengos
de Monsaraz, 25 de Abril de 2004
Ricardo
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